terça-feira, 21 de novembro de 2017

O mergulho da libélula

Quando menino, fui criado em beira de rio. Cansei de passar o dia inteiro curtindo de tudo que o rio me oferecia. Banhava tanto, que as pontas dos dedos enrugavam.

Lembro de algo que chamava bastante minha atenção; as libélulas voando e tocando com a cauda na água. Não sabia porque elas faziam aquilo, mas achava que havia uma razão muito forte. Só depois de algum tempo é que fiquei sabendo que são as fêmeas soltando seus ovos. Naquela época chamávamos estes insetos de Macaquinhos.

Há uma espécie muito interessante que, em vez de jogar os ovos, pousa em uma planta, coloca a cauda dentro d’água e deposita-os nos caules, para ficarem protegidos de predadores.

Existe ainda outra espécie que mergulha totalmente na água, e com a ponta da cauda faz cava no caule para colocar os ovos. Quando isso acontece a liberdade de voar é temporariamente suprimida e o risco de morrer, por falta de oxigênio, é eminente. Retornando à superfície, é necessário um esforço tremendo para que as asas voltem a bater e elas peguem voo novamente. Todo este sacrifício é com o único propósito de pôr os ovos em lugar seguro e garantir o nascimento de outro igual.

Assim é a vida.... Toda reprodução carrega o princípio de que é necessário sacrifício para que o outro tenha vida. O início da existência de um, exige colocar, mesmo que momentaneamente, a vida de outro em risco. Quem sabe não foi isto que o filósofo romano Sêneca quis dizer com: Viver é correr o risco de morrer!
 
Observando as libélulas, sem consciência da morte elas apenas vão vivendo e se reproduzindo. Infelizmente há pessoas que, mesmo com a consciência da eternidade, vivem sem reproduzirem nada. Parafraseando o apóstolo Paulo: Se o viver produz vida, então a morte passa a ser lucro.

Cristo foi profundo sobre isto quando disse aos seus discípulos que, se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, ficará só; se morrer, produz muito fruto. Ele estava se referindo à sua morte na cruz do calvário, dando vida plena para uma humanidade condenada à morte eterna. Logo, sem morte a vida humana não se eterniza.

Pensando bem..., o tempo tornou a morte e a vida parceiros de existência, pois um depende do outro para se consolidarem. É morrendo que se vive; e quem vive, um dia morre. Bem disse o grande sábio: Há tempo de morrer e tempo de viver.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

COEXISTIR

Hoje, ao cair da tarde, contemplando o pôr do sol da sacada do meu apartamento, meus olhos se deleitavam com a beleza dos raios do sol incidindo sobre as nuvens. À medida que o tempo passava, o grande astro luminoso mergulhava vagarosamente na linha do horizonte. Fiquei ali quieto até o céu escurecer.

O entardecer para mim não é nostálgico, é sempre um momento especial de boas recordações. Das muitas lembranças, descrevo um final de tarde que marcou muito minha vida. Era um dia de inverno, e uma garoa caía lentamente, deixando o clima bem fresco. Sentado em um mocho pequeno, sob as folhagens da goiabeira do quintal lá de casa, presenciei aquela transformação com um olhar estupefato. Como poderia ser isto!?

Daquele casulo saía uma linda borboleta, de asas grandes e de um azul cintilante indescritível. Concluída a metamorfose, meus olhos testemunharam os primeiros voos daquele belo inseto. Por algum tempo fiquei com a mente imersa no surgimento daquela extraordinária criação de Deus.Pela primeira vez parei para pensar sobre a vida além da existência humana. Foi a partir daí que passei a ver o mundo ao meu redor com um olhar diferente. Entendi que a vida compreende um conjunto de existências, que coexistir é que nos torna maiores do que já somos. Meus olhos se abriram para a realidade de que, toda a criação é obra das mãos de Deus.

Já satisfeito com o que tinha experimentado, levantei, peguei o mocho, e entrei em casa levando o universo comigo. Esta lembrança foi tão nítida na minha mente, que só depois é que percebi que eu estava em meu apartamento, e não na casa de infância.

Foi uma recordação que me fez muito bem, pois até sonhei que voava com as asas da borboleta!            

Cristo a esperança da glória!

Diante de tudo que se tem visto e ouvido, é inegável que o desespero tem assolado a humanidade, de tal forma, que tornou-se doença mortal. A busca desenfreada por uma vida gloriosa e isenta de dor é como um buraco sem fundo que leva as pessoas cada vez mais para baixo. Desesperados, muitos transformam o viver em uma eterna luta de superação de problemas. Esquece-se que o desespero nada mais é do que a negação interior de que a vida tem suas contingências, e de que somos seres humanos limitados em todos os aspectos.

A negação de nossa natureza humana nos consome, nos leva            
a exigir de nós e dos outros o que nunca alcançaremos neste mundo; a perfeição. Kierkegaard em “O desespero humano”, fala que o desespero se manifesta de duas formas: Não querermos ser nós mesmos, ou a vontade desesperada de sermos nós mesmos. Paulo, apóstolo dos gentios, viveu este desespero, e só superou suas angústias quando admitiu sua miserabilidade humana. Foi assim que ele aprendeu a lidar com as pressões da vida sem, no entanto, deixar-se ser consumido por elas. Os discípulos de Jesus também enfrentaram esta luta, a ponto de serem avisados pelo próprio Cristo que as aflições deste mundo seriam inevitáveis.

Só há uma saída para que não sejamos engolidos pelo desespero; fazer de Cristo nosso ânimo, nossa motivação maior de viver. Quem busca refúgio em Cristo, não é dominado pelo desespero, porque experimenta paz em quaisquer circunstâncias da vida. 
Cristo a esperança da glória!                        

quarta-feira, 15 de março de 2017

Os desfiles da vida

Mais um ano em que o desfile na passarela do samba foi mostrado em detalhes pela televisão brasileira. Na verdade, já a um bom tempo os acontecimentos do mundo todo se transformaram em meros “desfiles” que não cessam de passar à vista da plateia.
A televisão não deixa escapar um. Tem desfiles de todos os gostos. Cada desfile que passa vai produzindo alegria, euforia, tristeza, raiva, choro, admiração, rivalidade, desespero e até indiferença.
Os “desfiles” do cotidiano são diferentes dos da passarela, já que nestes as pessoas se expõem para serem aplaudidas, enquanto naqueles as pessoas são expostas para produzirem audiência. Atualmente, entre os “desfiles” em destaques, que prendem milhares e milhares de pessoas na televisão, estão: Os refugiados da Síria desesperados para encontrar o chão do sossego; o Donald Trump exibindo sua intolerância e discriminação para com os imigrantes; a vergonhosa podridão da política brasileira e a fome matando milhões de crianças no mundo todo. Daqui a um tempo esses “desfiles” serão empurrados por novas comissões de frente, e outras novidades vão entrar na passarela da informação.
E é neste samba da vida que a plateia vai se tornando cada vez mais insensível às dores e sofrimentos da multidão. As tragédias são tantas, que de tanto chorar as próprias dores, não dá nem tempo de chorar com os que choram. Como diz Chico Buarque: “E cada qual no seu canto. Em cada canto uma dor. Depois da banda passar. Cantando coisas de amor”.
Os olhos estão obscurecidos diante da realidade de que, depois que o “desfile” passa, fica apenas uma passarela encardida pela sujeira da indiferença. No final de tudo, vale o que disse o sábio Salomão: Nada faz sentido! Nada faz sentido! Porque só o temor a Deus é que dá sentido a tudo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Minha amizade com um ateu

Dos vários colegas de infância havia um que eu me identificava mais. Sempre estávamos juntos. À medida que fomos crescendo fomos também descobrindo nossas diferenças pessoais. Nos estudos, ele gostava de botânica, eu de matemática; no esporte, ele gostava de basquete, eu de futebol. Quando chegou o tempo de faculdade, ele seguiu a Agronomia, eu segui a Engenharia. Já bem cedo me tornei um cristão, quanto a ele, se tornou um ateu ferrenho. Mesmo assim, éramos bem ligados um ao outro.

Mas, pelas circunstâncias da vida, ele foi morar em outra cidade. Nesse tempo ainda não tinha facebook nem whatsApp, aí perdemos contato um com o outro. Passaram-se muito tempo, mas vez por outra a lembrança daquele colega vinha à minha mente. Com o advento da internet, resolvi procurá-lo. Não foi difícil encontrá-lo. Bastou cutucar o facebook que ficou fácil a gente voltar a se falar. Como diz um poema que li: Nunca é longe demais o caminho que nos conduz à casa de um amigo.

Depois de algumas conversas pelo whatsApp percebi que entre nós ainda havia muita admiração um pelo outro. Ele continuava ateu, por isso falamos de muitas coisas menos de religião. Havia razão de evitarmos esse tipo de conversa. Antes de nos distanciarmos, ele sempre afirmava duas coisas. A primeira é que ele só acreditava em Deus se pudesse ver Deus. A segunda é que ele detestava conversar com crente, pois a ladainha era sempre a mesma: Céu e inferno, salvação e condenação, pecado e arrependimento, etc.

No início eu ficava chateado quando ele falava estas coisas, mas hoje o entendo muito bem. Aprendi na caminhada com Cristo que tudo na vida tem que ter equilíbrio, e que a verdadeira fé é refletida no viver comum e não no muito falar de Deus.

Um belo dia, ele me surpreendeu! Mandou-me um whatsApp pedindo que eu falasse alguma coisa sobre a existência de Deus. Aí eu vivi um dos maiores desafios em minha vida: Falar para um ateu da existência de Deus sem os termos da religião. Uau! Gostei!

Neste tempo, estava lendo vários poemas de grandes escritores. Então resolvi compartilhar com meu colega sobre o que Rubem Alves disse, quando perguntaram pra ele se ele acreditava em Deus. “Deus nunca foi visto por ninguém. Por acaso a gente vê os próprios olhos? Quem vê os próprios olhos é cego. Para ver com os próprios olhos, é preciso não ver os olhos... Deus é como os olhos. Não podemos vê-lo para ver através Dele. Deus é um jeito de ver”.

Depois disso, ele retornou dizendo que gostaria que falássemos mais sobre Deus. A partir daí comecei a falar do modo como eu via e sentia Deus. Pois é, a verdade é que a gente quer explicar demais a existência de Deus, e acabamos esquecendo que ninguém explica Deus.

Até agora não sei se ele deixou de ser ateu, mas uma coisa eu sei, não quero explicar Deus. Quero tão somente olhar através de Deus.

domingo, 2 de outubro de 2016

Pênalti e Votação

Gosto muito de assistir uma partida de futebol. Sou do tipo que vibro muito quando o time que torço marca gol. Mas tem algo que me inquieta muito no futebol... Uma decisão de jogo pelos pênaltis. O jogo de futebol é um confronto entre equipes; já o pênalti é um enfrentamento individual de um contra um, onde as equipes apenas esperam o resultado.

O interessante é que o resultado de um pênalti nem sempre determina qual foi a melhor equipe em campo. Às vezes o melhor jogador é o que perde o pênalti, e o melhor goleiro é o que não defende nenhum. Uma decisão pelos pênaltis pode deixar um gosto amargo de injustiça nos jogadores da melhor equipe, ou um sentimento de superação nos da pior.

Acho que uma decisão eleitoral é parecida com uma decisão de uma partida de futebol pelos pênaltis. Os Partidos políticos se enfrentam durante todo o período de propaganda eleitoral, mas no final das contas a vitória vem de uma decisão individual.  Ou seja, é o candidato tentando pegar o voto do eleitor, e o eleitor tentando não jogar seu voto fora. Na política nem sempre o Partido com melhores propostas vence, assim como, nem sempre o melhor candidato é eleito. Já vi eleitores frustrados por verem seu Partido sendo derrotado por um péssimo candidato. Pois é! Se no futebol há decisões injustas, imagina na Eleição. E como tem!

Penso que, tanto no pênalti como na votação, a questão maior não está no resultado, mas na consciência de quem bate e de quem vota. Nenhuma batida de pênalti ou decisão de voto deve ser feito de forma irresponsável. Se votarmos com consciência, a frustração pelos resultados é passageira, e só assim olharemos para frente esperando uma nova oportunidade.


Um voto livre é um voto consciente!

sábado, 10 de setembro de 2016

Fulguras, ó Brasil!

Nesta semana resolvi desfilar pelo tempo. Pra mim, patriotismo é coisa séria. E isto é fruto do que aprendi com meus pais e nos colégios que estudei durante a adolescência e juventude. Naqueles tempos, na Semana da Pátria, tinha-se uma reverência muito grande pela Nação. Estudando na Escola Técnica, aprendi bem cedo a cantar “de cór” o Hino Nacional, da Bandeira e o Hino do Maranhão. Por vários anos mantive na memória as letras destes hinos. Hoje, ainda carrego no peito o Hino Nacional completo. E todas as vezes que ouço e canto, meu coração ainda bate forte. Pois é: Sou brasileiro da gema!

Lembro-me como se fosse hoje... Meus pais nos acordando bem cedo, todo dia 7de setembro, para irmos assistir os desfiles dos Colégios e das Forças Armadas. Ficávamos eufóricos e cheios de expectativas pra ver qual Escola desfilava melhor. Quando chegava a vez do Exército e os soldados marchando com as botas de cano longo e num só compasso, a emoção tomava conta da gente. Só pensávamos na Pátria amada e no orgulho de ser brasileiros. Ah! Tempos em que ser brasileiro era questão de honrar as cores da nossa Bandeira e respeitar a Constituição Federal.
Tive o privilégio de viver no tempo em que o valor da Pátria sobrepujava a de um partido político; que a força do Congresso Brasileiro era maior do que qualquer bancada política; e que mesmo com a fidelidade partidária, os três poderes caminhavam de mãos dadas.

Só que o tempo passou, as coisas mudaram e o Brasil embaralhou de vez. Hoje, os governantes não lutam mais pelo país, é o povo que luta pra encontrar quem de fato pode governar a nação. Não podemos negar que vivemos tempos difíceis..., mas a luta continua. Ainda se ouve nas ruas o brado retumbante dos filhos que não fogem à luta. Sou do tipo otimista, pois acredito, e continuarei acreditando, que podemos superar este momento. No linguajar bem brasileiro: Ainda tem jeito pro Brasil!
Não tenho dúvidas que a Luz da liberdade continua brilhando no céu da nossa Pátria, e que lá do alto, um manancial de amor e de esperança jorra sobre este país, que é gigante pela própria natureza. Desistir? Jamais! Seguir sempre. Com a certeza de que, a Luz do novo Mundo se aproxima trazendo Paz Eterna.
Avante Brasil!!

sábado, 16 de abril de 2016

Uma suave solitude


A pior solidão vem de dentro e não de fora. É aquela que vive dentro da pessoa. Há quem vive só e em solidão, e há solidão em meio à multidão. Mas, como disse o Criador, a solidão não é coisa boa.

Por outro lado, há uma coisa que parece solidão, e que na medida certa é boa. Solitude! Se for demais sufoca a alma, se for de menos impede a alma repousar no assento do sossego. A medida da solitude sadia não está na reclusão, mas no prazer de ser único usufruindo a vida com os únicos.  Acho que foi isto que Clarice Lispector quis dizer ao escrever: “Ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão”.
Penso que quando Deus falou no início “Não é bom que o homem esteja só”, Ele estava se referindo não apenas à presença física de outro igual, mas do encontro e da vivência de indivíduos, para se tornarem dois ou mais, sendo primeiro um.

A solitude gostosa é aquela que brota da união da serenidade com a paz de espírito. Quem experimenta esta solitude nunca se sente só, porque há dentro de si gozo de estar consigo mesmo e com Deus. A partir daí, a presença do outro não é apenas uma necessidade de estar junto, mas de compartilhar a vida.
Sendo assim, na jornada da vida há espaço para uma suave solitude. Nela, eu entro no silêncio do meu ser, e ouço a voz do Eu Sou.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Um diálogo entre o Facebook e o Computador

Computador: Sabe Facebook, eu sou o instrumento da tua existência.

Facebook: É verdade!

Computador: As pessoas só te usam se eu for ligado; basta me desligarem que tu “já era”.

Facebook: É verdade!

Computador: Tá vendo como tu és limitado?

Facebook: Estás esquecendo só de uma coisa, meu caro. Há milhares que te ligam só pensando em mim. Eu sou a rede de relacionamentos mais importante do mundo.  Achas que eu sou limitado? Não sou não! Quero lembrar-te que, tem quem dorme contigo, mas ligado a mim o tempo todo. HaHa Ha. Tá pensando o que? Tem muita gente, comendo e cagando, comigo junto. Não sou pouca coisa não, meu chapa! Olha eu aí! Há até quem não sabe mais viver sem mim, ou melhor, só vive por meio de mim. É pouco, ou quer mais?

Computador: Poxa! Nunca pensei que tinhas esse cacife todo. Então me diz a verdade. Onde está, ó Facebook, a tua vitória?

Facebook: A minha vitória? A minha vitória já foi consumada no coração e na mente desta geração. Só pra te ter uma ideia, é através de mim que o país mostra realmente a sua cara. Sabes por quê? A quantidade dos que transitam por mim, curtindo e comentando, é infinitamente maior do que aqueles que fazem passeatas. Tu sabes que é mais fácil mostrar a cara através de mim, do que expor a cara na rua. Sei que podes me chamar de atrevido, mas sem querer te menosprezar, posso te dizer uma verdade? Hoje, por meio de mim, tudo fica mais fácil para esta geração. Vou te mostrar por que:

·         Eu sou muito usado como um meio para as pessoas revelarem quem elas são de verdade.

·         Quem não tem coragem pra dizer no olho do outro o que pensa, diz através de mim.

·         Muitas vezes sou arena de combate entre a verdade e a mentira, a coragem e o medo, a sinceridade e a falsidade, a tolerância e o desrespeito.

·         Atualmente sou mais usado e lido do que qualquer livro do mundo. Através de mim, uma fala ou escrita alcança lugares inimagináveis.

·         Praticamente tornei o contato pessoal desnecessário, porque a comodidade e a praticidade me fortalecem. O bom é que, através de mim, a conversa não exige a presença. A companhia é relativa, o que importa mesmo é comentar. Quem comigo comenta, espalha!

·         Tenho até poderes pra revelar segredos, intimidades, amores, amarguras e vaidades.

·         Por incrível que pareça, mas quem não diz o que pensa por meio de mim, tá ferrado, porque é taxado de alienado.

·         Todo aquele que está em mim, perde o direito de ficar calado, porque quem cala consente. Uma vez estando em mim, todo silêncio representa ficar em cima do muro. Aí a briga é pra saber de que lado se estar.

·         Por meio de mim até a fé em Deus é mensurada. Se não curtiu é porque não crê.

·         Sou tão forte que faço até inimigos se relacionarem à distância.

·         Já ouvi dizer que sou a melhor invenção que foi criada pelos homens. Mais uma vez, hahaha. Estou competindo lado a lado com tudo o que foi criado. Já começo até me sentir um deus.

Enfim. Você não percebe o poder da minha influência? Tudo isso que te falei, alguém escreveu e colocou em mim. Isto é demais! Agora posso te dizer como me sinto, sem medo de errar. Nesta geração “Eu sou o cara”. E aí? Vai curtir, vai comentar ou ignorar?

 

 

 

sexta-feira, 4 de março de 2016

No escurinho do cinema

Assisti “O Regresso”. Filme que fez Leonardo DiCaprio ganhar a estatueta de melhor ator do Oscar 2016. Na verdade, não achei o filme grande coisa, comparado a outros de enredos semelhantes. A trama é de mais uma história de vingança pessoal, coisa que, justiça seja feita, os americanos sabem dramatizar muito bem. Palmas para eles!

 As imagens das mudanças climáticas, a força da natureza e a fúria animalesca sobre o corpo humano, leva o telespectador a admirar a capacidade que o homem tem, de suportar situações que beiram os limites de sobrevivência.
Para mim, o que torna o filme significativo e o livra do simplismo, é que o enredo é norteado por uma declaração ousada e ao mesmo tempo inquietante, quando transportada para a realidade da vida. A expressão “O vento não derruba a árvore que tem raízes fortes” induz os mais perspicazes a uma análise mais apurada sobre a subsistência humana, em meio às adversidades e intempéries que os envolve. Se o vento é indomável, a árvore é vulnerável e a raiz pra ser forte depende do que a terra lhe oferece, então há algo além do previsível e do visível, que de fato possibilite ao homem superar seus limites de sobrevivência pra se manter em pé. O autor do filme tenta mostrar isto ao telespectador recorrendo ao velho recurso das cenas de cunho sobrenatural. A presença do espírito amigo acompanhando o amado que ficou. No final, a gente regressa pra casa com a sensação de que jamais teremos raízes fortes para suportar o insuportável.  

Talvez não exista exemplo mais notável de resistência, frente às vicissitudes pelas quais o ser humano pode passar, do que a história de Jó. Conhecendo o que se passou com este homem, fica claro que ele era como árvore de raízes fortes. Todavia, com a declaração “Eu sei que o meu Redentor vive”, Jó deixa claro que a força de suas raízes não vinha de baixo, mas de cima. Fazendo um paralelo da história do personagem representado por DiCaprio, com o  sofrido e perseverante Jó, mais uma vez concluir que, o homem uma vez caído, só consegue levantar-se se suas raízes estiverem fincadas no chão da existência de Deus.
Saí do cinema lembrando-me de uma declaração popular, que não está contida literalmente na Bíblia, mas expressa a realidade da trajetória humana na terra: O cair é do homem e o levantar é de Deus!

 

 

 

 

 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Apenas fomos humanos

A primeira vez que assisti, gostei! Mas quando assisti em casa, pela segunda vez, foi que uma expressão me chamou atenção. “A menina que roubava livros” é um filme que retrata a vida de uma garota vivendo em uma cidade alemã dominada pelo Nazismo, durante a 2ª Guerra Mundial.

Não é um filme enigmático, talvez por isso algumas preciosidades passem despercebidas.  Todavia, encontrei nele uma frase que me fez pensar melhor sobre “ser humano”. A menina Liesel, dialogando com seu pai adotivo Rush sobre o que estava acontecendo, diante da perseguição e da atitude deles de ajudar os outros, afirma: Apenas fomos humanos.
Com esta afirmação, minha mente foi aguçada a pensar sobre o que é ser humano de verdade. Comecei admitindo que Deus não só criou o homem, mas também o fez humano. Ser “humano” vai além de ter um corpo, uma alma e até mesmo um espírito. Sem sobra de dúvidas, nunca seremos humanos sozinhos, porque só se é humano de verdade, na convivência e na importância que se dá ao outro.  Assim, fica mais fácil entender porque neste mundo, tem gente humana e desumana, gente boa e gente cruel.

Mas, na minha mente, a coisa não parou aí. Lembrando-me de tudo que li nos Evangelhos, sobre como Jesus viveu entre os homens, entendi perfeitamente que Ele foi mais humano do que todos os humanos da face da terra. Ele não só se fez gente como a gente, mas viveu e expressou uma vida de verdadeira humanidade. Era no exercício de sua humanidade para com as pessoas, que Jesus expressava sua grandeza espiritual. Seus ensinamentos expressam muito bem isto. Sua reação ao farisaísmo e à rigidez dos doutores da Lei demonstrava claramente que Ele não separava espiritualidade de humanidade. Ao mesmo tempo em que Ele curava a alma, também curava o corpo. Saciava a fome espiritual, mas também supria a fome natural. Rejeitava o pecado, mas andava com os pecadores. Mesmo depois de ressuscitado, Ele andou com os discípulos e comeu com eles.
Por fim, lembrei de que os humanos são tão especiais para Deus, que hão de julgar anjos (I Co.6:3). “Ser humano” é mais do que ser apenas criação de Deus, é ser como Cristo é. E ser como Cristo é significa ser humano como Ele foi, amar como Ele amou e viver como Ele viveu na terra. É bom lembrar que Jesus se apresentou ao mundo, como Filho de Deus e Filho do homem.

Penso que hoje, muitos cristãos estão em busca de uma espiritualidade desassociada de sua humanidade. Esquecem que a verdadeira espiritualidade é aquela que nos torna mais humanos e generosos com o próximo. O que de fato o mundo precisa é de cristãos mais humanos, que carregam em si, o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, pois esvaziou a si mesmo, assumiu a forma de servo e tornou-se semelhante aos homens. (Fp.2:5-7).
Quero primeiro ser um cristão mais humano, para enfim me tornar um humano mais santo!

 

 

 

 

sábado, 16 de janeiro de 2016

Refletindo sobre o momento atual: Vida apertada!

A vida tem seus apertos! E há apertos de todo tipo nesta vida.
Porém, o aperto só existe porque tem quem aperta e tem quem é apertado.
Além de ser o contrário de folgado, apertado pode ser: acochado, espremido ou sem espaço.
Há coisas que só funcionam no aperto, mas há outras que se apertar estraga.
Antigamente, a grana definia a qualidade de vida: folgada ou apertada.
Tem gente que só vive folgada, e há aquelas que só andam apertadas na vida.
Existe algo que apenas a apertura da vida ensina: A diferença entre necessário e desnecessário. Dependendo da situação, o pouco é precioso e o suficiente é ideal. Não há dúvida, de uma vida acochada pode se tirar muitas lições.
Tem aperto que só existem dentro da gente. É aperto que só sabe quem sente. Já ouvi isto: “Estou com o coração apertado”.
Não sei qual é o mais doído, o aperto por falta de espaço ou o aperto por excesso de vazio.
Um bolso vazio pode gerar muitos apertos. Neste caso, apertado significa falta do que é necessário. Daí é que vem o apertado com seus reclames: “E aí? Como estão as coisas? A coisa tá feia. Estou mais apertado do que parafuso encravado”.
Mas, ainda sobre vida apertada, há também outra coisa muito interessante que acontece. É que existe o folgado que só vive engolido pelo apertado, ou seja, gente que na medida em que ganha, perde. Isto normalmente ocorre quando ignoramos o que Paulinho da Viola transformou em melodia: “Dinheiro na mão é vendaval, é vendaval!...”.
Administrar bem o dinheiro não é pra qualquer um, porque exige sabedoria e domínio próprio.
Pela primeira vez, no meu país, tenho visto gente folgada vivendo aperreada, e até gente da alta sendo enjaulada. Penso que, o momento em que estamos vivendo requer cautela e equilíbrio. Precipitação e desespero só impede entendermos que, em tempos de crise, a solução dos problemas pode estar bem juntinho da gente. Diante disso, vale lembrar um ditado português: “Andando na égua e perguntando por ela”.
Mais do nunca, a hora é de beber da sabedoria de Salomão: “Tudo tem uma ocasião certa; e há um tempo certo para todo propósito debaixo do céu” (Ec.3:1). Consciente disso, o melhor a fazermos é dá ouvido à voz daquele que supre todas as coisas: “Aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus...” (Sl.46:10).

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Final do ano dentro dos finais dos tempos

O final do ano é só o fim de um período de 365 dias, encerrando assim o calendário do ano em vigor. Já os finais dos tempos têm a ver com a realização dos últimos acontecimentos antes da volta de Cristo. As Escrituras dizem que nos finais dos tempos os dias serão maus; por outro lado, afirma que felizes são os que vivem na esperança da eternidade da vida.
 
Só a eternidade faz a vida ser maior que o tempo vivido, porque a eternidade é atemporal. O passado, presente e futuro compõem o tempo de vida na terra, mas a eternidade é a existência sem limite. Há duas formas de encarar a vida: Viver sob a égide dos limites do tempo; ou viver na perspectiva da eternidade, na presença do Criador.
Os sinais dos últimos tempos já se apresentam de forma visível, logo, o tempo urge. O grande desafio é vivermos o agora com a consciência de que o tempo não define a conclusão da história, porque há vida além do tempo. Eterno é Deus, por isso é Pai da Eternidade. E sendo eterno, Deus criou o homem dentro do tempo e depois colocou nele um ninho para a Eternidade morar.
A realidade crua e nua é que os finais dos tempos estão se sobrepondo sobre o final de cada ano. E para àqueles que têm esta consciência, o melhor a fazer é caminhar com a convicção de que existe uma garantia de um futuro e de uma esperança, selada pelo Criador. Esta garantia não é validade pelo tempo que vivemos, mas pela vida daquele que transcende o tempo, Jesus Cristo!
 
Que vivamos o ano de 2016 com a consciência encharcada de esperança de um futuro glorioso, reservado por Deus, para aqueles que o amam. Feliz Ano Novo de Novo!

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O outro lado


Depois de ler uma postagem muito comentada no Facebook, sobre um tema bastante polêmico, minha mente foi aguçada a pensar sobre “o olhar só para um lado”. Na verdade somos tendenciosos, por natureza, a olhar só para o lado que nos interessa, nos favorece e nos atrai. Excluindo os perspicazes, nos satisfazemos rapidamente com o que há no lado da frente por ignorarmos o que há no lado de traz ou no outro lado. Quando adolescente, tive uma experiência inusitada, para nunca mais ignorar o outro lado. Ao atravessar uma avenida de mão dupla, olhei somente para o lado correto do trânsito, e para minha surpresa fui atropelado por uma bicicleta que vinha na contramão da avenida. Que dor! Isto me marcou tanto, que desde cedo ensinei meus filhos a olharem sempre para os dois lados ao atravessar uma rua.  

Embora na maioria das vezes esquecido, o outro lado é tão real quanto o lado que se vê. No geral, o outro lado é uma incógnita, um segredo e um desafio. Porque além de desconhecido é também o lado que exige pisarmos em terras que os nossos pés nem sempre querem pisar. O mundo está cheio de outros lados: O outro lado do continente; o outro lado da moeda; o outro lado da sociedade; o outro lado da linha; o outro lado do muro; o outro lado do outro, etc.

Infelizmente a geração de hoje, na sua maioria, prefere conhecer o “outro lado” à distância. Usa-se o lado da frente como mero espelho para visualizar o que há no outro lado, no entanto, qualquer envolvimento real com este lado é ignorado. Exemplo maior disso são as redes sociais, cujo objetivo maior é alimentar as relações virtuais. Uma geração que trata com quem está do outro lado só no nível da impessoalidade, ou seja, muitos amigos, conselheiros, amantes, e até inimigos, mas todos distantes. Ao mesmo tempo em que se está ligado a muitos, mas na verdade não se tem ligação real com ninguém. A ausência de comunhão, que enaltece a relação pessoal, é marca registrada desta geração.     

Dentro desta realidade, penso que é de fundamental importância rever nossa relação com os nossos semelhantes, porém com a premissa de um olhar mais profundo e mais humano.  Com o olhar natural, que é a capacidade física de ver o que é aparente, somos atraídos para o lado que fascina nossa visão e aquece nossos desejos e paixões. Já com o olhar do coração não é assim, porque este olhar faz a gente sentir antes de vê, silenciar antes de falar, amar antes de julgar, aprofundar antes de fazer conclusões. O coração olha primeiro o que não está visível, para só depois olhar o que estar aparente. Quem não tem coração pra ver, é como aquele observador da lua que fica o tempo todo a admirá-la, no entanto ignora a importância que ela tem para a terra.

De todos os outros lados, existe um que só a gente conhece; o outro lado da gente mesmo. Esse é o íntimo nosso, onde guardamos segredos, sonhos e imaginações. Nele, ninguém consegue entrar além de nós mesmo e Aquele que nos criou. Normalmente é nele que se escondem nossas feiuras e belezas, porque nele reside quem realmente somos. É o lado que Clarice Lispector disse que chamava por ela: “O outro lado de mim me chama. Os passos que eu ouço são meus”. O sábio Salomão preferiu chamar de “íntimo do ser” (Pv.20:27). Já o apóstolo Paulo chamava o outro lado humano de “homem interior” (Ro.7:22).

Entendo que Jesus vê o outro lado de uma pessoa como o lado que não pode ficar imune à dor que o lado visível sente. Fazendo uma avaliação simbólica do texto, fora do contexto, o lado da face que foi batido é o lado da dor da carne, que é a dor comum; mas o outro lado da mesma face é o lado que é oferecido para ser colocado no lugar do outro e sentir sua dor (Mt.5:39). A gente só pode se colocar no lugar do outro quando aprendermos a olhar com o coração e com a alma. Creio que na cruz, Jesus olhou o outro lado da humanidade com o coração, por isso disse: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc.23:34).

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Cadeira de balanço.


 
 
Fazia tempo que eu não ia ao sítio de meu pai. Desde quando minha mãe se foi passei a evitar ir ali. Tudo naquele lugar e naquela casa lembrava aquela baixinha carismática. Por uma necessidade de negócios foi necessário passar por lá. Parei o carro e fiquei alguns minutos sem sair. Pensativo e com o coração apertado abrir o portão de alumínio, e a primeira visão foi daquele lugar tradicional que meus pais ficavam ao cair da tarde. A imagem estava tão clara em minha mente que parecia que os meus olhos acompanhavam o vai e vem das cadeiras de balanço. Hoje, também tenho uma cadeira de balanço. Vez por outra me sento nela, e no ritmo do balanço sou transportado aos tempos de antigamente.
A casa era toda avarandada, com o nível do piso bem acima da área livre. Devido a isto, havia uma escada bem larga de quatro degraus que iam se sobrepondo na forma de um trapézio. Em frente à casa a mangueira predileta de minha mãe permanecia intacta. Na lateral direita os dois pés de cajus cruzavam seus ramos, produzindo assim um sombreado agradável de si ficar. Próximo ao muro frontal estava as três pitangueiras que meu pai cuidava de forma especial.
Por permanecer fechada há bastante tempo, dava a impressão que a casa estava abandonada. Sozinho, o ambiente produziu em mim uma mistura inquietante de saudade-silêncio-solidão. Sentia-me engolido por um vazio doloroso da presença. Entrei na casa pela porta dos fundos e fui a todos os aposentos. A sensação era de voltar pra casa depois de muito tempo fora. Senti uma pitada de saudade do aconchego da casa de meus pais. Na suíte principal o guarda-roupa vazio e a cama sem colchão guardavam segredos de um casamento duradouro; no corredor, sobre a pequena escrivaninha o telefone jazia mudo; na sala de jantar estava a mesa que só servia de recepção para os visitantes, pois raramente era usada; e na grande sala já não havia o conjunto de sofá, somente a velha Arca onde minha mãe guardava os intocáveis pratos de porcelanas. Ainda permanecia na cozinha a mesa de oito lugares, toda de pau-d’arco. Ao mesmo tempo em que olhava a mesa, muitas lembranças passavam pela minha mente. Aquela mesa era como um lugar sagrado para meus pais, porque era ali que os filhos costumavam se reunir para comer e compartilhar a vida com eles. De repente acariciei a mesa e falei como se ela pudesse me ouvir: Tu és uma grande testemunha dos momentos maravilhosos que passei aqui com meus pais.
Depois de fechar a porta da cozinha, dei uma volta completa ao redor da casa. Perto do portão de saída ainda parei e dei o último olhar no lugar onde meus pais ficavam sentados nas cadeiras de balanço. Em lágrimas fechei o portão e deixei aquela casa pra trás. No meio do caminho percebi que só a casa é que ficou para trás, mas o lar dos meus pais continuava comigo. Porque casa de pai filho nunca esquece.
    


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Só eu! Eu só!

Era aquele momento de sol morno.
Em torno das 4 horas da tarde o sol já começava a declinar.
Vez por outra ouvia o ronco do motor de um carro passando.
Um galo cantou..., o canto veio carregado da lembrança do quintal lá de casa.
Fiquei pensativo, olhando pela janela a paisagem externa.
Uma grande caixa d’água se destacava no horizonte.
Sentado na cadeira da mesa da cozinha, voltei os olhos para dentro.
Via a chaleira e a panela de pressão sobre o fogão.
A pia estava limpa, e a toalha de enxugar mão pendurada num suporte de alumínio.
Um vento leve roçava minhas costas, e eu deleitava-me no silêncio da minha alma.
Não era tristeza, não era saudade; nem silêncio, nem solidão.
Era apenas o sossego da vida e a minha vida no sossego.
Meu pensar se misturava com a quietude que me cercava.
Então fechei os olhos e me deixei levar pelo regaço da paz que silenciou meus pensamentos.
Momento inusitado e inesquecível! Prazer puro e serenidade divina!
Quando o tempo passou, aí eu pude entender. Não era só eu, e eu só. Era Ele comigo, e eu com Ele.
Pois é, eu estava tão somente sozinho com o Eu sou. Eu Nele, Ele em mim.

 

domingo, 3 de maio de 2015

A inutilidade dos sonhos absurdos

Mesmo que todos os nossos sonhos não se realizem, ainda assim não devemos parar de sonhar. Sonhar a concretude de algo faz a gente ser como criança, que começa a fazer um brinquedo acreditando que uma hora vai da certo. Sonhar é coisa saudável, mas sonhar sonhos absurdos é permanecer com a mente infantil. Há quem mistura os sonhos do inconsciente, quando está dormindo, com os sonhos da mente quando está acordado. Dependendo do sonho, tem gente que sofre de ansiedade esperando que aconteça, ou sofre de medo só em pensar que um dia pode acontecer.

Interessante é que sonhos absurdos naturalmente produzem conversas inúteis. Por incrível que pareça, quando eu era criança, as estórias contadas por meu pai antes de dormirmos, eram conversas inúteis muito úteis para fazer a gente dormir. Pois é, ainda bem que só servia pra dar sono na gente. Meus melhores sonhos foram de olhos bem abertos. Graças a Deus! Infelizmente no mundo de hoje transformaram, não as estórias, mas a realidade em sonhos absurdos e conversas sem pé e sem cabeça. Lembro que antigamente, quando alguém contava uma estória ou um sonho absurdo, se dizia que era conversa pra boi dormir. Acho que hoje é conversa para aprisionar ovelhas no aprisco do engano.
Um dos ambientes onde mais predomina os absurdos sonhados e a inutilidade dos discursos é o religioso, mais especificamente o meio evangélico. Transforma-se um simples sonho em revelação dita como divina, como se Deus ainda precisasse deste recurso para revelar alguma coisa às pessoas. Esquece-se que nada mais será revelado a não ser por meio do Filho, Jesus Cristo! (Hb.1:1,2). A falta de temor a Deus e o uso irresponsável das palavras de Jesus, chegou a tal ponto, que se “profetiza” em nome de Deus o que Ele nunca falou, e se revela sonhos como se fossem mensagens vindas diretamente Dele. Até parece que Deus tem que baixar, na calada da noite, na mente daquele que dorme, semelhantemente a um passe espírita, para revelar sua vontade. Não sou cético a ponto de afirmar que Deus nunca usa sonhos para sinalizar algo, mas não vejo isto como regra comum. A base de revelação da vontade de Deus está primeiramente no modo como Cristo viveu na terra e em suas palavras descritas nos Evangelhos. A era dos sonhos passou, porque a graça de Deus nos alcançou!

O sábio Salomão alertou os sonhadores dizendo: “Em meio a tantos sonhos absurdos e conversas inúteis, tenha temor de Deus” (Ecl.5:7). A falta de temor a Deus tem levado muitos cristãos a viverem sob o engano de Satanás e dos falsos profetas. Sem temor a Deus não há sabedoria para discernir o que é verdade e o que é mentira. Sábio é aquele que guarda o que ouve, espera pela revelação do Espírito Santo e deseja que em tudo seja feita a vontade de Deus. Amém!

quarta-feira, 4 de março de 2015

Inversão de valores


 
Parece que na atual conjuntura, com um mundo cheio de grandes descobertas, onde as coisas mudam antes mesmo de amadurecerem, a questão da inversão de valores já não gera grande impacto ou mesmo nenhuma inquietação na sociedade em geral. O interessante é que esta questão já vem de longas datas, pois as declarações do apóstolo Paulo a este respeito mostram a semelhança do mundo antigo com o atual. Na carta aos Romanos ele afirma: “... os pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato obscureceu-se, (...), trocaram a verdade de Deus pela mentira...” (Ro.1:21,25).
A inversão de valores generalizou-se a tal ponto, que a verdade foi diluída em “pseudoverdades” com base de sustentação no relativismo e na pluralização. Os valores supremos firmados nos princípios deixados pelo Autor da vida, e que faz com que a vida seja de fato prazerosa, foram sufocados pelo pensamento egoísta do individualismo e da liberdade desenfreada de direitos. Como cada um tem sua verdade, então os deveres se tornam relativos e os valores de convivência são cortados em pedaços, ou seja, o que é verdade para um, pode não ser verdade para outro, e vice-versa. Daí, eis um mundo sem referências e sem absolutos, indispensáveis para subsistência de uma comunidade sadia. E assim o mal vai se alastrando na sua pior forma de se manifestar, ou seja, na omissão deliberada da prática do bem. Santo Agostinho já dizia isto nas Confissões: “... o mal é apenas a privação do bem, privação cujo último termo é o nada”. O apóstolo Tiago diz em sua carta: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg.4:17). Na parábola do bom Samaritano o erro do sacerdote e do levita não foi pelo que eles fizeram, mas pelo que deixaram de fazer.
Trazendo para o mundo das instituições religiosas, a situação é mais escabrosa, pelo simples fato de haver homens que se intitulam porta-vozes de Deus, mas usam as próprias palavras de Cristo de forma invertida, para cauterizar as mentes dos incautos, com o fim único de angariar prosélitos.
Por outro lado, ter plena ciência disso tudo não muda em nada nossa vida e nem o meio em que vivemos. Antes de tudo, faz-se necessário sairmos da posição de meros expectadores e nos tornamos agentes de transformação. Isso se dá quando nos dispusermos a abraçar a verdade e os valores de Cristo, e renunciarmos tudo aquilo que impede vivermos conforme o modo como Ele viveu na terra.
Sendo assim, para não incorrermos no erro de inverter os valores, vivamos conforme a orientação de Cristo, que nos alertou a colocar as coisas do Reino de Deus na posição certa, ou seja, em primeiro lugar em nossa vida.
 
 
 
 
 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A essência do Natal

O Natal carrega em si duas realidades, a alegria de receber e o prazer de dar. Primeiro usufruímos da alegria maior de recebermos diretamente de Deus o melhor de todos os presentes, Jesus! Um presente incalculável, porque tem as melhores qualidades: Um menino nos nasceu, um filho se nos deu..., seu nome será chamado Maravilhoso conselheiro, Deus poderoso, Pai eterno e Príncipe da paz (Is.9:6). Segundo, ao recebermos este presente eterno, somos enxertados do amor cuja essência e subsistência está enraizada no prazer de dar e compartilhar. O Natal reaviva em nós a verdade de que foi pela graça de Deus que recebemos Dele tudo de graça, para de graça dar: Vocês receberam de graça; deem também de graça (Mt.10:8).

O Natal também produz em nós o sentimento de liberdade, porque o maior presente da vida é viver a vida em liberdade: Para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl.5:1). Houve um dia que Deus se fez gente por amor a gente, e neste dia houve uma grande festa celebrada nos céus e na terra, com júbilos, adoração e presentes (Mt.2:9-11). Neste caso, o Natal é semelhante à festa do Purim, que é a comemoração pela preservação da vida. Esta festa é cheia de alegria, de troca de presentes e de ofertas aos pobres (Et.9:19-22).
Que o valor desta festa se eleve acima de todos os mitos religiosos, radicalismos opressores e enganos malignos. Que não subestimemos o real sentido do Natal, ofuscando seu valor dando ouvidos a fatos históricos e fábulas enganosas. Que a nossa consciência do nascimento de Jesus não seja vituperada por conceitos humanos destorcidos, que faz o calendário ser maior que a razão de ser e existir.

Que a alegria deste dia especial seja adornada pela certeza de que Aquele que nasceu, viveu e morreu pela humanidade, um dia haverá de voltar cheio de glória e poder, para encher as pessoas de vida abundante e tornar assim o mundo melhor.
Um Feliz Natal, cheio de alegria, fé, esperança e amor.

Pr. Glaber Leitão

 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Ipê amarelo

Já começava a duvidar se neste ano ele iria florir. Toda manhã ia para janela na esperança de novamente contemplar suas flores amarelas se destacando entre o verde comum. Na verdade ele insiste em sobreviver no meio das novas construções. Lembro-me que quando nos mudamos para aquele prédio foi no período dos ipês florescerem. Em São Luis esse período acontece entre os meses de agosto e setembro. Fiquei encantado na primeira vez que o vi da janela do meu apartamento. Aos poucos fui me apegando a ele sem mesmo perceber. Fiz dele uma fonte de inspiração para minha alma. No bairro onde moro as transformações estão acontecendo a passos largos, por isso sinto que os últimos dias desta bela árvore já se aproximam. A cada dia ela sofre os efeitos do desmatamento; seus galhos já estão secando e sua folhagem murchando lentamente.

Mas este ano foi diferente! Aquele Ipê me surpreendeu! Quando o vi, percebi que ele tinha produzido flores amarelas com uma tonalidade especial. Fiquei tão radiante diante da beleza natural daquela árvore que minha afetividade por ela ficou mais profunda. Foi aí que entendi plenamente o que o escritor francês Gaston Bachelard quis dizer em “Ensaio sobre as imagens da intimidade”: Toda matéria meditada, torna-se imediatamente a imagem de uma intimidade. Através da contemplação, eu e aquele Ipê nos tornamos íntimos. Ele, pela sua beleza exterior chamava atenção de todos, mas eu o admirava submerso na imaginação do que havia dentro dele. Estava sentindo na pele aquilo que o poeta alemão Hans Carossa afirmou: O homem é a única criatura da terra que tem vontade de olhar para o interior de outra. À medida que minha vista se concentrava na imagem exterior, minha imaginação mergulhava para o interior daquele Ipê. A verdade é que a beleza dele entrava em mim e eu, por meio da imaginação, entrava nele. Descobrir que toda sua beleza visível era tão somente o invólucro do extraordinário que compunha seu interior.
Os dias passaram, as flores e as folhas caíram, e aquele Ipê ficou despido de sua beleza natural. No entanto, sempre que o contemplava, minha mente insistia em olha-lo do lado avesso. E foi assim que descobrir que uma imagem só pode ser bem admirada quando nossa imaginação nos transporta para seu interior. Uma mente fértil de percepção descobre com facilidade que a qualidade do que há dentro do que se vê é que definirá o tipo de aparência que terá. Este princípio corresponde também à imagem humana, pois como escreveu o sábio Salomão, o coração alegre aformoseia o rosto. Ao lermos os ensinos do mestre Jesus ver-se que este princípio está implícito em suas palavras, ou seja, que em todo aparente encontramos mais realidade naquilo que se oculta do que naquilo que se mostra: “... porque a boca fala do que está cheio o coração”; “Não julguem apenas pela aparência...”.

Isto tudo só vem reforçar a realidade da velha contradição de que, no branco existe o preto secreto que só pode ser trilhado através da imaginação pessoal. Sendo que este preto interior pode se revelar como fonte de beleza ou de feiura, dependendo das qualidades escondidas nele.
Pela minha imaginação entrei no cerne daquele Ipê, e ele pela sua beleza entrou no meu âmago. Na verdade fiz o que Jean-Paul Sartre afirmou: “É preciso inventar o âmago das coisas, se quisermos um dia descobri-lo”. Com o aprofundamento desta imagem encantadora e bela, fui levado a refletir sobre a profundidade de meu próprio ser.
Antes de ensinar seus discípulos, quem sabe não foi isto que Jesus vivenciou ao afirmar: “Vejam como crescem os lírios do campo!”.

Tudo o que Deus criou é muito bom (Gn.1:31).