sábado, 27 de julho de 2013

Lagoas e lençóis

Foi um dia daqueles! Cansativo, no entanto, prazeroso. Os passeios foram cheios de aventuras e emoções. Para chegarmos às lagoas dos Lençóis Maranhenses tínhamos que seguir uma trilha cheia de curvas e com muita areia, o que exigia carro de tração nas quatro rodas. A Toyota se transformava em brinquedo de criança, pois o balanço mexia tanto com a gente que era impossível não se emocionar. Além da emoção havia a facilidade de sorrirmos por qualquer coisa, melhor dizendo, por bobagens. Tudo era motivo de expressarmos felicidade por estarmos juntos como família.

A euforia era grande! Estávamos todos contagiados pela alegria de vivenciarmos algo incomum. Nesta aventura nos esquecemos de tudo que ficou para trás: dívidas, contas a pagar, projetos a realizar, e principalmente das coisas corriqueiras da vida que produzem em nós desejo por viver coisas novas. Sentia-me como uma criança travessa, e via meus irmãos de igual modo. Parecia que os tempos de outrora tinham voltados.

Ao chegarmos às dunas fomos impactados pelas lagoas de águas transparentes. Ali era a natureza pura, original e esplendorosa diante de nossos olhos. Ficamos encantados com as maravilhas da criação de Deus. A sensação era que estávamos em um pedaço do Paraíso. Eita! Até parece que eu já vivi no Paraíso. Na verdade, essas coisas a gente só diz quando estamos embriagados pela beleza e grandeza da criação. A imensidão das dunas intercaladas pelas lagoas; um vento suave tocando o meu corpo, e um céu de um azul límpido, produzia em mim uma reverência maior Àquele que é e que sempre será a razão maior de tudo que vivi, vivo e que ainda viverei. Extasiei-me com a originalidade do que via e mergulhei de cabeça na profundidade do que é belo.

Um momento extraordinário ainda haveríamos de viver naquele paraíso terrestre, daí aguardarmos até o final da tarde para contemplarmos o pôr do sol. Subimos em uma das dunas mais alta e miramos o encontro do grande astro com a linha do horizonte. Somente neste encontro é que os olhos humanos conseguem vislumbrar a potência desta fonte luminosa. A mistura de cores e os raios solares incidindo nas nuvens enfeitavam o céu e produzia um ambiente festivo e reflexivo ao mesmo tempo.

Esta aventura foi muito gratificante, mas acima de tudo foi um grande privilégio poder viver com meus familiares momentos que nos aproximaram mais; tanto uns dos outros como de Deus. Sem dúvida, as aventuras muitas vezes servem para atiçar o que sentimos de mais precioso por aqueles amamos. Este dia, com certeza é um dia inesquecível.

 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Ausência versus Presença

O Rubem Alves diz que saudade é a presença da ausência. Entendo que ele está se referindo à ausência de alguém ou de algo, de valor incalculável, mas que continua bem presente no coração de quem sente a saudade. Esta ausência pode ser gerada pelas contingências da vida; pode ser circunstancial ou até mesmo proposital. No final das contas é sempre uma ausência dolorida.

Por outro lado há aquela ausência que é desejada e valorizada, que quando não se faz presente sentimos até falta dela. Quando as férias do patrão intolerante e autoritário passam muito rápido, é possível que um empregado sinta saudade da ausência. Quando um pai rabugento e ignorante fica muito tempo em casa, é provável que os filhos sintam falta da ausência. Quando um esposo indiferente e frio produz inquietação na esposa, a probabilidade dela desejar a ausência dele é muito grande.

Há ainda a ausência que tem prioridade sobre a presença. No mundo de hoje é comum a ausência suplantar a presença. Ela é fruto da comodidade de quem está ausente e da falta de consideração com quem estar presente. Sempre que um atendente deixa alguém que está presente esperando, para atender alguém que está na linha telefônica, é porque a ausência suplantou a presença. Quando um pai prefere instruir o filho por meio de email evitando uma conversa direta, é porque a presença foi depreciada em relação à ausência. Esta ausência tem tanto valor hoje, que tem aqueles que preferem gastar horas nas redes de relacionamentos a sentar com alguém e ficar conversando.

A questão é tão séria que mesmo Deus, quando criou o homem, reconheceu o prejuízo que a ausência produz na vida das pessoas: Não é bom que o homem esteja só. Ou seja, o homem necessita da presença para que sua vida se torne mais prazerosa de viver. E esta presença diz respeito à presença de Deus e do próximo. É bom lembrar que a manifestação de Deus na terra se revela por meio da Trindade, que na forma mais simples e limitada de entendimento significa uma unidade composta; ser um com a presença de todos.
Talvez o grande problema da solidão seja de como lidamos com a presença e do quanto valorizamos a ausência. Graças a Deus que há uma presença que nunca deixaremos de ter: A presença do próprio Deus. Na sua oração com o Pai, o rei Davi o inquiriu muito bem sobre isto: Para onde eu poderia fugir da tua presença? (Sl.139:7).

Nesta luta entre a ausência e a presença, travada no interior do homem, a vitória é definida quando o coração si esvazia para ser cheio Daquele que tem em si a presença maior: A onipresença.

 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Mimoso


Talvez quando filhote sim, mas depois que cresceu, de mimoso não tinha nada. Bem verdade é que o Mimoso que sempre me veio à mente foi o que conheci em uma brincadeira de São João durante as festas juninas. Esta brincadeira é muito valorizada em minha terra, o Maranhão, e é conhecida como Bumba-meu-boi. Tudo ocorre em volta do boi, que na verdade é a principal figura da festa, e consiste numa armação de madeira em formato de touro, coberta de veludo bordado. Em uma destas festas, o boi tinha o nome de Mimoso. Dizem que aquilo que se vê pela primeira vez é difícil de esquecer. Então eis aqui eu, falando de Mimoso.

Mas o Mimoso desta história é outro. Era o cachorro mais valente do bairro. É interessante, mas no processo da vida o próprio tempo se encarrega de fazer suas intervenções. No geral tudo que nasce, nasce delicado, agradável e mimoso. Só que com o tempo e com as transformações a beleza inicial se esvai. E assim o que era delicado fica só na lembrança. Imagino que seus donos só o nomearam de Mimoso porque era um filhote muito formoso. Só que ao crescer, aquele cachorro manifestou características semelhantes às de um touro brabo: Todo preto com pêlo liso e brilhoso, porte físico bem dividido e valentia acima do comum em qualquer cachorro. Só de olhar pra ele dava medo. Além de feroz era muito violento, aponto de chegar a matar o adversário quando brigava. Não havia um cachorro no bairro que era páreo para ele. Seu latido parecia mais como um rugido de leão.

Numa bela tarde quando a garotada estava toda reunida no campinho onde se jogava bola, não se sabe como, mas Mimoso fugiu do quintal da casa dos seus donos. O primeiro que viu gritou: É Mimoso! É Mimoso! É Mimoso! Daí só restou uma coisa a fazer. Parar de jogar e... Pernas pra que te quero. Nunca corri tanto como corri naquele dia. Ocorre que esqueci que tinha meu irmão mais novo na jogada. Dizem que o medo faz a gente deixar qualquer tesouro pra traz. No meu caso deixei literalmente um grande tesouro. No desespero, o único tesouro que eu queria era um lugar para me esconder. Neste caso fica fácil entender as palavras do grande Mestre: “Onde estiver o teu tesouro, aí também estará e teu coração”.

Só que o sangue que corria nas minhas veias gritou pelo sangue que ficou pra traz. E assim foi que o amor lançou fora todo o medo. Não pensei duas vezes; voltei! Infelizmente não deu tempo de impedir o sofrimento, mas deu tempo de demonstrar o Amor. Voltamos juntos para o esconderijo, nossa casa. Ele, ferido no corpo; eu, ferido na alma. Mas graças a Deus que Mimoso passou e eu continuei com meu irmão, jogando bola e gritando “Gool”.

 

 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Natal!

Alegria por fora, por dentro silêncio! Neste dia o mundo fica inundado de esperança. As boas-festas são aquecidas de reverência. Nas casas, as mesas ficam repletas de delícias recheadas com sabor de Vida. As batidas dos corações se alinham ao compasso da história; então se ouve o ecoar do real significado do Natal: Deus se fez gente e habitou entre nós!

Nasceu aquele cuja existência antecede a fecundação. A festa é do Eu sou, porque antes mesmo de nascer já era. Natal é comemorar a Vida dentro da vida; é crê que o Eterno mergulhou no tempo e o Invisível se deixou abraçar pelo visível. Só comemora verdadeiramente o Natal aquele que admite que, o Maior se fez menor, o Mestre se fez servo e o Grande se humilhou.

Natal é muito mais do que comemoração, é verdadeira celebração. É muito mais do que reunião, é comunhão que faz a gente vê o outro como irmão. É muito mais do que emoção, é aprender a repartir o pão e a doar-se de coração.

Natal! É carregar no colo e no coração o Menino que um dia nos nasceu; e como um Filho que se nos deu, fez-se nossa grande salvação. Seu nome é: Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade e Príncipe da paz.

Feliz Natal!!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Algo ficou pelo caminho

Assistindo o filme “Antes de partir”, me chamou atenção a expressão “Algo ficou pelo caminho” declarada por Carter, personagem interpretado por Morgan Freeman. Ele falava sobre seu relacionamento conjugal para seu companheiro de quarto Edward, interpretado por Jack Nicholson.

De repente me veio à mente que nem tudo que experimentamos em nossa vida deve ficar guardado nas gavetas do passado. Não viver aprisionado pelas lembranças do passado não significa deixarmos pra trás tudo aquilo que contribuiu para vivermos melhor o presente. Há coisas de ontem que, ainda sendo boas, não servem mais para hoje; por outro lado, há aquelas que devem ser preservadas e que no decorrer do tempo devemos sempre trazer conosco. Vale lembrar que os conceitos e princípios de reais valores não mudam no decorrer do tempo, o máximo que pode acontecer é serem aperfeiçoados. A questão é muito mais de serem praticados ou não.

Melhor ambiente pra se entender isto é na família, onde nossa formação se processa por meio da prática de valores que se perpetuam de geração em geração. Conforme o enredo do filme fica claro que Carter ao declarar esta expressão estava se referindo às práticas conjugais salutares vividas com sua esposa e que foram ficando pelo meio do caminho. Sem dúvida, na estrada da vida cada momento é único. Comungo com o pensamento de que ninguém consegue beber de uma fonte a mesma água duas vezes. É impossível experimentarmos literalmente, com os mesmos detalhes e a mesma intensidade, os momentos maravilhosos outrora vividos; mas é possível continuarmos sentindo o mesmo gosto destes momentos, principalmente quando eles se tornam práticas constantes em nossa vida. Neste caso, já não se sabe distinguir o que é passado e o que é presente, porque fazemos destes instantes um modo natural de vivermos.

O sábio Salomão afirmou que a vida é uma repetição de fatos (Ecl.1:9); sendo assim só nos resta duas opções: vivenciá-los ou ignorá-los. Não devemos nos enganar, a vida é composta de momentos. Ou a gente passa por eles ou eles passam pela gente. No nosso caminhar, quando em algum instante deixamos algo de bom pelo caminho é porque nos esquecemos de alimentar este algo que um dia também nos alimentou. Sábio é aquele que não desperdiça cada momento que a vida lhe oferece.

Vivamos o presente, sem no entanto, deixar pra trás os verdadeiros valores que tornam a vida mais prazerosa de se viver.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Dito e Dizer: Aquele que me vê.

Dito e Dizer: Aquele que me vê.

Também penso assim. A dor é de quem sente a agústia do seu próprio sofrimento. Acho que é algo intransferível, pois quando sofro por vê o sofrimento do outro, acabo sofrendo a dor na intensidade que é só minha. Lembro a história de Jó e seus amigos quando estes foram mostrar solidariedade e consôlo ao ficaram sete dias e sete noites ao lado de Jó, sem dizer uma só palavra (Jó 2:11-13). Muitas vezes o silêncio ao lado de quem está sofrendo é o melhor consôlo.
Gostei muito desta postagem, pois encontrei sabedoria diante de um mundo tão barulhento. 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Deslumbramento

Fiquei deslumbrado! Expressão ultrapassada nesta geração. Sugada pela força do desencanto, gerado pela multiplicidade das descobertas, tornou-se sinal de tolice e marca registrada daquele que é considerado bobo. Facilidade de entusiasmar-se, sentir-se fascinado e maravilhado, são coisas de outros tempos. Já não nos encantamos mais como antigamente!
Muito tempo já se passou quando a magia de uma nova descoberta transformava as crianças em bebês e os adultos em crianças. Quando as novidades entusiasmavam os velhos e estes voltavam a sonhar. Hoje, nada é mais novidade, tudo é apenas uma questão de usar a inteligência. O que foi descoberto hoje, no dia seguinte já foi ultrapassado por algo melhor. Não dá nem tempo de se comemorar e muito menos de si encantar.
O deslumbramento nem sempre é fruto da grandeza da descoberta ou do objeto admirado, mas principalmente do olhar de quem descobre e admira. Só fica encantado quem olha com o coração. Fascinação acontece quando os olhos emprestam a visão para a alma. Quando isto ocorre, é possível ficarmos deslumbrados com algo que já estava há muito tempo diante de nós. Daí a expressão: Há tanto tempo ao meu lado e eu não o percebia. Só quem já experimentou os efeitos de um verdadeiro deslumbramento entende quando uma criança fica excitada ao ver seu super herói; compreende porque nem a raça e nem a cor faz diferença nas relações pessoais; sabe por que a aparência física não sobrepuja sobre o amor; e acima de tudo aprende a admirar as coisas e as pessoas pelo valor que elas têm e não pelo valor que os outros dão a elas.
Dizem que quem estar deslumbrado vê o que o outro não consegue enxergar, porque vê além do óbvio. Talvez isto se explique pela própria etimologia da palavra, que é a soma do intensificativo DES mais LUMBRE, que por sua vez vem do latim LUMEN, correspondente à palavra LUZ. Sendo assim, estar deslumbrado é estar sob efeito da luz e da transparência.  
Penso que quem primeiro ficou deslumbrado foi Deus, pois quando terminou de criar todas as coisas, viu que tudo havia ficado muito bom. Houve também homens no passado que ficaram encantados com a grandeza da criação de Deus. Dentre eles está Davi, ao reconhecer que de uma maneira sobrenatural e maravilhosa foi formado. Outro, de tão deslumbrado com a pessoa de Jesus, declarou: “Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos!”.
Infelizmente hoje tem acontecido o contrário. Perdeu-se a capacidade de deslumbrar-se devido o desejo narcísico de se tornar alvo de admiração. Muitos estão aprisionados pela busca obsessiva de reconhecimento por parte dos outros, por isto não conseguem se fascinar com as coisas simples e significativas da vida. Entendo que para resgatar a sensibilidade dos corações é necessário que primeiro seja permitido trocar o coração de pedra pelo coração de carne; e isto só acontece quando a alma e o espírito choram por Deus.